Toda plataforma de mídia paga tem interesse em mostrar o melhor resultado possível. Não por má-fé — mas porque o modelo de atribuição padrão de cada plataforma foi desenhado para maximizar o crédito que ela recebe pelas conversões.
O Meta, por padrão, atribui uma conversão a qualquer usuário que viu ou clicou em um anúncio e depois converteu dentro de uma janela de 7 dias para clique e 1 dia para visualização. O Google tem janelas similares. O LinkedIn usa 30 dias. Se o mesmo usuário viu anúncios nas três plataformas antes de converter, todas as três vão contar a conversão. Você terá três CACs baixos e um CAC real muito mais alto.
O problema da atribuição sobreposição
Imagine uma empresa que investe R$ 30k em Meta, R$ 20k em Google e R$ 10k em LinkedIn por mês. No total, R$ 60k. No mês, fecharam 20 contratos.
O Meta reporta 14 conversões — CAC de R$ 2.142.
O Google reporta 11 conversões — CAC de R$ 1.818.
O LinkedIn reporta 8 conversões — CAC de R$ 1.250.
Some os três: 33 conversões atribuídas. A empresa fechou 20. As plataformas estão se disputando crédito pelos mesmos clientes. O CAC real é R$ 60.000 ÷ 20 = R$ 3.000. Mais que o dobro do que qualquer plataforma reportou.
"O relatório da agência mostrava CAC de R$ 800. O financeiro calculou R$ 3.200. A diferença não era erro — era o modelo de atribuição padrão da plataforma funcionando como esperado."
Os três CACs que toda empresa tem
É útil nomear os três CACs separadamente para deixar claro do que estamos falando em cada contexto:
- CAC da plataforma: o número que o Ads Manager reporta. Calculado com o modelo de atribuição próprio da plataforma (last-click, view-through, data-driven). Serve para comparação interna dentro da mesma plataforma — não para decisões de alocação de budget entre canais.
- CAC de marketing: total gasto em mídia paga no período dividido por total de clientes cujo primeiro contato registrado foi via anúncio. Calculado a partir do CRM. Mais honesto, mas depende da qualidade dos dados de origem do lead.
- CAC real (caixa): total gasto em toda a operação de aquisição (mídia + agência/consultor + ferramentas) dividido por total de clientes pagantes no período. É o número que o CFO usa e o único que importa para decisões de LTV e payback.
Como calcular o CAC correto usando o CRM
Passo 1: definir o evento de conversão no CRM
Antes de qualquer cálculo, você precisa de um campo no CRM que registre: (a) a data em que o lead entrou pela primeira vez, (b) a origem desse lead (UTM source/medium/campaign), e (c) a data em que se tornou cliente. Sem esses três campos preenchidos de forma consistente, o cálculo não é confiável.
Passo 2: usar coorte — não período calendário
O erro mais comum no cálculo de CAC em B2B é dividir gasto do mês X pelo número de clientes fechados no mês X. Em ciclos longos de venda, os clientes que fecharam em outubro entraram como leads em julho. Você está dividindo o custo de aquisição de um grupo pelo resultado de outro.
A forma correta é usar coorte: pegar todos os leads que entraram em julho, calcular quanto foi gasto em mídia em julho, e dividir pelo número de clientes que esse grupo específico de leads gerou — independente de quando fecharam.
Fórmula do CAC por coorte
CAC = Gasto em mídia no mês de entrada do lead ÷ Clientes fechados originados naquele mês
Essa conta exige 3-6 meses de dados para ser feita, dependendo do ciclo médio de venda.
Passo 3: separar CAC por canal de origem
Com os UTMs configurados corretamente no CRM, você consegue quebrar o CAC por origem: utm_source=meta, utm_source=google, utm_source=linkedin. Isso permite comparar canais de forma justa — usando o mesmo numerador (clientes fechados originados no canal) e denominador (gasto no canal no período equivalente).
Importante: atribua o cliente ao canal do primeiro toque, não do último. Em B2B com ciclo longo, o cliente vai interagir com múltiplos canais antes de fechar. O primeiro toque geralmente indica qual canal trouxe a descoberta — informação mais valiosa para decisões de onde investir em awareness.
O que fazer com o CAC real
O CAC isolado tem pouco valor. O número relevante é a relação CAC:LTV. Para operações saudáveis em B2B, o LTV deve ser 3x o CAC no mínimo. Em SaaS com contratos anuais, 5-8x é comum. Em serviços com alta recorrência, pode chegar a 10x.
Se o seu CAC real é R$ 3.000 e o LTV médio do cliente é R$ 6.000, a operação tem margem — mas estreita. Cada churn antecipado corrói rapidamente essa margem. Se o LTV for R$ 15.000, você tem espaço para escalar o budget agressivamente.
O outro número importante é o payback period: quantos meses para o cliente pagar o custo de aquisição. Em operações com ciclo de contrato mensal, payback de 6-12 meses é razoável. Acima disso, a empresa precisa de muito capital de giro para escalar.
Por que reportar o CAC correto é difícil politicamente
Existe uma resistência real em organizações para adotar o CAC real como métrica principal. O motivo é simples: ele é sempre mais alto do que o que a plataforma mostra, e isso parece "piorar" a performance no papel.
Uma agência que reporta CAC de R$ 800 por Ads Manager vai ter dificuldade em adotar um modelo que mostra R$ 3.000. O número do Ads Manager é o que permite continuar sendo pago e renovar o contrato.
Para quem está do lado do cliente, a solução é simples: exigir que os relatórios incluam sempre o CAC calculado a partir do CRM, com metodologia explícita. O CAC da plataforma pode aparecer como referência interna — nunca como a métrica de sucesso da operação.
Perguntas frequentes sobre CAC em mídia paga
Como calcular o CAC real em mídia paga?
Divida o total gasto em mídia no mês de entrada do lead pelo número de clientes que esse grupo de leads gerou — independente de quando fecharam. Esse cálculo por coorte é o único que funciona em B2B com ciclo longo. Não divida gasto atual por clientes fechados no mesmo mês: são populações diferentes.
Por que o CAC do Ads Manager é menor do que o real?
Porque cada plataforma usa seu próprio modelo de atribuição com janelas de view-through e click-through. Se o mesmo cliente viu anúncios no Meta, Google e LinkedIn antes de comprar, as três plataformas contam a conversão. A soma das conversões reportadas supera o total real de clientes — tornando todos os CACs reportados sistematicamente menores do que o verdadeiro.
O que é análise de coorte para CAC?
Agrupar leads pelo mês em que entraram e calcular o CAC desse grupo ao longo do tempo. Em B2B com ciclo de 90 dias, os clientes fechados em outubro vieram de leads que entraram em julho. Comparar gasto de outubro com fechamentos de outubro mistura dois grupos diferentes. A coorte corrige essa distorção temporal.
Qual deve ser a relação LTV:CAC?
Em B2B, LTV de pelo menos 3x o CAC é o mínimo para uma operação saudável. Em SaaS com contratos anuais, 5x a 8x é comum. Abaixo de 3:1, cada churn antecipado corrói rapidamente a margem. Essa relação é o principal indicador para decidir se o budget de mídia pode — ou deve — ser escalado.
Próximo passo
Você sabe qual é o CAC real
da sua operação?
Se você depende do número do Ads Manager para tomar decisões de budget, provavelmente está alocando mal. Posso ajudar a construir o modelo correto.
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